«O choro ainda é muito mal compreendido. Pensa-se que os seres humanos são a única espécie que o faz. (...) Alguns biólogos acreditam que choramos para livrar os nossos corpos de certas hormonas - a constituição química das lágrimas emocionais é muito diferente das que vertemos quando nos pisam o dedo grande do pé ou descascamos cebolas. A ideia é de que nos estamos a purgar dos químicos que começaram por nos fazer sentir tão perturbados. Outra teoria diz que choramos, libertando assim uma grande quantidade de hormonas na nossa circulação sanguínea, para acentuarmos ainda mais o nosso estado de desequilíbrio. Depois de chorarmos tudo o que tínhamos a chorar, voltamos ao nosso estado hormonal médio e sentimo-nos como se, de repente, tudo estivesse muito melhor. Por outras palavras, chorar faz-nos sentir superestranhos para que, depois, nos possamos sentir aliviados, dando-nos a estranha ilusão de que a situação externa melhorou. Trata-se, basicamente, de uma versão química da teoria aristotélica da catarse: quando choramos (por causa de um drama ficticio ou do drama da nossa propria existencia) conseguimos descarregar algumas emoçoes, purificar-nos para que depois nos possamos sentir moderaamente normais e felizes.
Uma terceira explicação para o choro (que não tem de contradizer as outras duas) é a de que se trata de uma forma muito particular de comunicação concebida para fazer com que as outras pessoas nos ajudem. Os bébes choram na esperança de convencer quem cuida deles a fazer determinadas coisas. Os adultos podem chorar para provar a intensidade dos seus sentimentos, para mostrar a outras pessoas como estão magoados ou a importância que atribuem a algo. É como se o choro existissem em alternativa às palavras - uma coisa especial a que podemos apelar quando falar não é suficiente. Em vez de nos limitarmos a explicar a outra pessoa que o que ela está a fazer nos incomoda, podemos mostrar-lhe como isso nos afeta choramingando para um lenço de papel. Dido quando descobre que Eneias se prepara para partir, pede-lhe, lacrimenjante, para reconsiderar, (...) Quando ele pede desculpa e lhe diz que, infelizmente, tem mesmo de se ir embora e fundar Roma, ela fica estupefacta. (...) É impensável para Dido, tal como para Scralett O'Hara no final de E Tudo o Vento Levou, que o seu amado possa ser tão insensivel aos seus soluços. Parece quase inconcebivelmente cruel. E é este o problema das lágrimas. Por um lado, há nelas algo inadvertido, algo que não pode ser evitado. Mas, por outro lado, podem ser um dispositivo de manipulação, uma forma realmente eficaz de obtermos o que queremos. Quando Eneias e Rheet Butler conseguem manter os seus planos originais face ao choro das suas mulheres, é dificil decidir se havemos de ficar horrorizados ou impressionados. (...)»
Já Não Há Canções de Amor, Anouchka Grouse
- este capítulo (2, «cry me a river» - onde adoramos ser infelizes no amor) continua e fala da necessidade de entender com que tipo de lágrimas (e de pessoas...) estamos nós a lidar: as ditas verdadeiras, ou as típicas lágrimas de 'crocodilo'. De qualquer das formas só queria dizer que me sinto um Rheet Butler (enquanto Dido estava a ser honesta, o mesmo não se pode dizer da Scarlett).
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