ajeito a almofada. sento-me na cama. só há silêncio. toda a gente saiu, ou então toda a gente dorme. pego num cigarro, um que me deram na noite passada, mas dou conta que não tenho um isqueiro. afinal de contas, eu não fumo.
começa a chover. os carros passam e estranhamente, ouço inúmeras buzinas ressoando, tirando-me uma paciência que eu há muito perdi. perdi-a com as pessoas, perdi-a com o metro, perdi-a com o autocarro; perdi-a e duvido que a reencontre.
saio da cama e procuro na escassa claridade que trespassa pelas janelas da cozinha, um fósforo. abro a gaveta e lá está ele. não me sorri. acendo a porra do cigarro. estou honestamente sem paciência. volto para a cama enquanto o fumo e ouço a água da chuva a cair, batendo intensamente na janela, e no azulejo da varanda.
e tudo o que tenho depois são pensamentos distorcidos do que era a minha vida antes da grande metrópole e do que agora ela é, e também do que podia ser. e talvez só haja espaço para um determinado número de pessoas dentro da minha vida, embora eu de facto já não tenha paciência para estes humanos. quanto mais conheço toda a gente mais recordo que fui engolida pela cidade e a solidão crescente me vai tornando muito mais fria. talvez eu devesse desistir, não sinto que este seja o meu lugar. o cigarro acaba, destruo os restos no cinzeiro. e deito-me para dormir com a chuva.
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