Sei que parece que sou boa com palavras e que sou boa com
pessoas e que sou boa com a vida. Mas às vezes as palavras escapam-me, às vezes
magoo as pessoas sobretudo as de quem gosto a sério, e às vezes a vida passa-me
ao lado. Sei que queres fugir desta conversa e de mim porque eu sei dar tiros
certeiros nos corações das pessoas e penso sempre que meia dúzia de palavras
podem curar toda essa dor que (te) causei.
Por isso aqui estou eu, tenho este papel nas mãos e embora
não passe de uma folha rabiscada sem qualquer valor, escrevi-a para que me
pudesse lembrar de tudo o que tenho para te dizer e não sabia até hoje. Por
isso baixei as defesas, bloqueei as entradas no cérebro que originam os
palavrões, fiquei rouca de propósito para não ter como te gritar coisas feias e
cansei-me fisicamente para não ter mais força para te bater. Mas posso chorar.
E desculpa por não poder fazer grande coisa quanto a isso, mas trouxe uns
óculos de sol e uma mola para o nariz para não teres de assistir a esse
espetáculo de ranho e choradeira. Porque quando penso em nós não há nada mais
que eu tenho do que orgulho e às vezes comovo-me.
Eu escolhi viver bem e saudável sem ti. Escolhemos os dois. Mais ou menos. E eu acho que escolhemos porque em vez de semearmos essa coisa
boa da amizade, tu decidiste que querias proteger-me do teu não amor e eu
decidi que te tinha de convencer a amares-me. E embora desejássemos a
felicidade um do outro, estávamos a corrompe-la por completo. Eu queria
aproximar-me mas não sabia fazer melhor do que rabujar contigo. E tu
encolhias-te no teu silêncio constrangedor e na frieza das tuas ações. E
desistimos. Deixámos que a distância, o medo, o stress, e a opinião de
terceiros nos enevoassem a cabeça e o coração e contaminassem a nossa amizade.
E não venhas com coisas, que eu rabujo e bato-te e digo-te coisas feias mas até
nessas vezes sei que o faço com carinho. E sei que tu também és esse parvalhão
mas o teu coração é a coisa mais quentinha onde alguma vez me aconcheguei.
Eu tive estes dois meses para pensar em nós. Para me perdoar
pelos erros que cometi e por achar que sou tão pequena e tão pouco merecedora
de caminhar ao teu lado. E sobretudo para me perdoar por te ter deixado ir. Por
ter escolhido o saudável, o fácil, o correcto e por ter pensado sequer que essa
era a melhor opção e a que te ia fazer feliz. E também porque podia ter-te
apertado com força quando me abraçaste. Devia ter-me metido à frente do teu
carro ou corrido atrás dele e obrigar-nos a lutar. Devíamos ter olhado os dois na
mesma direção e enfrentado o medo juntos. O medo de te
perder e de ver a vida a levar-te. O medo de dizer que não quando é sim. Ou o
contrário. O medo de te abraçar com saudades. O medo de te elogiar. O medo de
ser ridículo/a. O medo de sermos nós próprios. O amor é pegar na mão do outro e
enfrentar o medo. É ser corajoso para abandonar o orgulho e o
preconceito e ser feliz. Porque eu nestes dias descobri que sou feliz e gostava de o partilhar contigo.
Também tive tempo para ver a nossa amizade e os seus altos e
baixos de uma outra perspectiva: a de que temos vários recomeços à nossa espera
e ao invés de vários fins.
Sei que é mais fácil fugir, mais fácil viver a vida como se
eu nunca te tivesse acontecido, mais fácil de traçar e de seguir um caminho sem
mim a atrasar-te, prender-te ou guiar-te. É mais fácil viver sozinho. Porque aprendeste assim. Não tens de dar satisfações a ninguém e muito menos corres o risco de te magoares. Dá sempre mais trabalho e ninguém nos garante que corre bem.
Mas vale sempre a pena. Sempre.
E se algum dia decidires ler isto e quiseres voltar, há uma
infiltração no teto do meu coração para o fazeres.
Sem comentários:
Enviar um comentário